Tô Pensando em contos... O ENSOPADO








Ensopado 




     É um belo lugar este que você tem aqui. Um sítio na Serra da Cantareira, perto o suficiente de São Paulo caso você queira os confortos da civilização, mas afastado o suficiente para lhe prover da paz e tranquilidade do interior. E bem isolado, também. Eu imagino que nem mesmo os seus vizinhos mais próximos possam ver ou ouvir o que se passa nessa casa, não é?

A casa, aliás, também é de ótimo gosto. É quase impossível acreditar que foi você quem escolheu, senhor deputado. Deve ter sido algum assessor, algum amante, algum outro abutre de terno dos seus círculos sociais. Eu adoro o lugar. Esses salões amplos devem ter um eco impressionante. Ah, sim, obrigado por gritar! Mas lamento dizer que só o eco vai lhe responder esta noite. Bom, “lamento” é um pouco forte demais. E pare de se sacudir, as cordas são grossas, eu aprendi a fazer nós na marinha, e o máximo que você vai conseguir é estragar uma cadeira bem cara.

O que é isso nos seus olhos? Medo, sim. Compreensível. Desespero, também, mas dá pra ver isso pingando pelas suas calças. Confusão? Sim, você está confuso. Você não lembra de mim, não é? Eu me dei ao trabalho de preparar todo este jantar para alguém que nem ao menos se lembra de mim! Que falta de classe a sua, vossa excelência. Não me deixa outra escolha, senão contar a minha história.

Sem problemas. Eu adoro falar para uma audiência, embora raramente eu tenha tido uma tão cativa quanto esta. Eu só espero que o seu ensopado não esfrie enquanto eu desfio a minha história de vida.

Eu não fui uma criança como as outras. Não sabia muito bem como ser, entende? Não me interessava pelas brincadeiras, não entendia a necessidade que as outras pessoas tinham em formar os seus clubinhos, jogar bola, correr na rua. Tudo uma grande perda de tempo. O que eu gostava mesmo era de cozinhar. Te lembra alguma coisa?

Minha avó foi quem me ensinou a cozinhar. A velha fazia os melhores bolos e tortas do bairro, nunca houve discussão sobre isso. Logo, eu também. Eu fiquei realmente bom nisso, diga-se de passagem. Ela me mostrou tudo o que sabia, e eu aprendia com gosto. Na escola, alguns eram bons em matemática, outros jogavam futebol bem, eu não era nada disso, mas tinha o talento da cozinha.

Com o tempo, fiquei melhor do que a vovó esperava. Era eu quem fazia as macarronadas de domingo, as pizzas nos fins de semana, as feijoadas das quartas-feiras, os bacalhaus na Páscoa, os bolos de aniversário. Chegou então a hora de aprender o ensopado que era o orgulho da matrona.

Ela o chamava de “O Ensopado da Paz”, porque, segundo ela, uma vez que o fizesse para alguém, nunca mais teria problemas com aquela pessoa. Eu já tinha visto aquilo na prática. Sempre que um vizinho tinha algum problema com a velhinha, ela convidava a pessoa para comer um ensopado e pronto! Ninguém mais falava sobre o assunto.

Depois que vovó me ensinou o ensopado, não havia mais o que eu pudesse aprender com ela. Eu já estava bem crescido e partiria com a Marinha no dia seguinte, então, como sinal de agradecimento, preparei para a velhota o seu famoso ensopado e parti para conhecer o mundo.

Na Marinha, fiz questão de esconder meus dons. Eu fazia tudo o que me mandavam como um bom cachorrinho do mar e fui recompensado com diversas oportunidades de viajar pelo mundo. Eu não fiz amizades propriamente ditas em minhas viagens, não essas lindas e sinceras relações que todo mundo parece ter hoje em dia – minha condição meio que me impede de formar esse tipo de conexão. Mas eu conheci muita gente, mesmo assim.
Na Coreia do Sul, eu conheci um marujo chamado Cho-Seok, que me apresentou um prato chamado sannakji, uma iguaria local feita com pedaços frescos de polvo. Muito frescos, aliás. De fato, Cho-Seok costumava comê-los vivos. A experiência de um polvo descendo vivo pela sua gargantas abaixo é única e abriu todo um novo leque de opções que eu nunca havia considerado.

No Japão, Toshiro, um cozinheiro de um restaurante badalado de Tóquio me mostrou outro prato no qual o animal era devorado vivo. O nome me falha agora, mas o peixe era aberto sobre a mesa e sua carne era cuidadosamente retirada pelos comensais, tomando o máximo de cuidado para não danificar os órgãos e nervos da refeição. A ideia era de que ao fim do processo, o peixe estivesse ainda inteiramente vivo e sentindo tudo o que acontecia.

Na China, uma velha camponesa chamada Fah preparou para mim o peixe Ying Yang. Ao contrário do peixe japonês, este não estava inteiramente vivo. Como o seu nome indica, o peixe Ying Yang estava entre os dois estados: metade sua estava viva, e outra estava cozida.

Quando cheguei na Tailândia, eu já não queria mais saber de peixe. Conheci um pescador chamado Khun que compartilhava da minha opinião e me mostrou um prato típico da região. Eu já havia visto aquilo em filmes, mas não imaginava que o preparo fosse tão divertido. Primeiro você amarra o macaco, depois repousa sua cabeça sobre uma tigela e despedaça o crânio com um martelo. A simplicidade daquilo me lembrou o tempo com a minha avó.

Eu terminei todas estas visitas com um bom ensopado, claro. Nada mais justo.

Os nossos caminhos se cruzaram depois que voltei destas viagens e abandonei a marinha, senhor deputado. Eu tinha um sonho de abrir meu próprio restaurante e quando voltei para o Brasil, encontrei meu país obcecado por  reality shows culinários que davam justamente o tipo de prêmio que eu precisava para começar meu negócio. Então eu me inscrevi no seu, senhor deputado.

Ah, naquela época você não era deputado, mas já tinha o nariz empinado. Você e aqueles seus outros dois colegas, três esnobes filhos da puta julgando uma competição armada. Eu sempre me perguntei se vocês compravam a mentira que vendiam ali. Nós não.

Eu e os outros competidores aprendemos logo que a emissora tinha os seus favoritos. Diabos, eles eram os favoritos de todo mundo. Eva, a loirinha bonita com o mesmo cabelo da protagonista da novela, olhos azuis e dentes tão perfeitos que dava vontade de arrancá-los e fazer um colar. Ela nem precisava saber cozinhar para ganhar ali. O outro era o Maurício, o playboy com pinta de galã que entrou na competição porque era filho de um figurão da TV e quis brincar no programa da moda. Se a competição fosse para ver quem tirava mais selfies na cozinha, ele não precisaria ter roubado.

Não que eu também não o tenha feito. Eu vi o suficiente do mundo para saber que talento e esforço não são suficientes, a receita do sucesso também leva uma boa porção de sabotagem. Uma boa dose de pimenta no molho branco que Camila preparava, um pouco de açúcar no saleiro de Joel, uma conversa amigável para fazer Mariana perder o ponto do cozimento do bacalhau... nada muito terrível, claro, só o suficiente para garantir que eu não seria o eliminado da semana. “No amor e na guerra”, não é?

Eu não era bobo. Sabia que não tinha como ganhar da Queridinha do Brasil e do Rei do Insta, mas sabia que um terceiro lugar pelo menos me garantiria um lugar como chef em algum restaurante cinco estrelas. O tipo de lugar em que eu merecia trabalhar, ao menos.

O quarto lugar, no entanto, é só o caminho mais rápido de volta à obscuridade.

Era a semifinal, e eu tinha feito tudo o que podia para preparar a melhor quiche da minha vida. Você olhou bem para o meu prato e decidiu que não gostava da cor. Disse que tinha passado do ponto ou talvez estivesse crua. Não conseguiu se decidir qual das mentiras soava melhor, mas me desclassificou de qualquer jeito.

O tempo passou e cada um seguiu sua vida. A Eva ganhou seu primeiro lugar, abriu um restaurante vegano na Orla de Copacabana e teve uma horda de pirralhinhos, o babaca do Instagram virou político e te levou junto e os seus outros dois colegas de juri voltaram à obscuridade de onde vieram. Todos seguiram felizes com suas vidas.

Eu não consegui. Talvez não tenha me esforçado o suficiente. A raiva me consumia por dentro, sabe? Ela foi meu combustível por muito tempo. Nada saudável, se quer saber. Para nenhum de nós.

No fim, achar você foi a parte mais difícil. Eu me pergunto se era de mim que você estava se escondendo quando comprou essa casa. Algum medo inconsciente de que as pessoas que você humilhou e enganou para chegar até aqui um dia pudessem querer se vingar. Aposto que muitas delas querem. Você é o tipo de pessoa acostumada a pisar em quem está por baixo, mas nunca espera que um dia o chão se abra sob seus pés.

Bom, você deveria ter aprendido a se esconder melhor, se foi o caso. Eu te encontrei e trouxe comigo o seu ensopado da paz. Você vi perceber que ele é bem encorpado, aliás. Eva, Marcos e aqueles dois imbecis que julgavam com você engordaram bastante nos últimos dias.





6 comentários:

  1. Pqp...
    Eu já imaginava que viria algo meio assim, mas ler cada detalhe ali, a raiva impressa em cada letra, foi meio que assustador e lindo.
    A agonia, o desfecho, o drama de toda a situação.
    Simplesmente, perfeito!!!
    Beijo

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  2. como sempre um conto visceral, cheio de emoções que saem das palavras para a leitura e interpretação do leitor
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Viiiish! Esses seus desfechos Brunooo...Perfeitos!
    Bjs

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  4. Bruno!
    Bem inteligente e o desfecho perfeito.
    Parabéns"
    “Só a mágoa deveria ser a instrutora dos sábios; Tristeza é saber.”(George Lord Byron)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de NOVEMBRO com 3 livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  5. Que conto diferente, acho que nunca li nada que focasse tanto na comida hahaha. Poucos parágrafos e um desenvolvimento incrível, e esse fim, então?! Adorei.
    Um abraço!

    https://paragrafosetravessoes.blogspot.com.br/

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  6. Oi, Bruno!!
    Que conto maravilhoso!! Adorei o desfecho!! Um pouco macabro mais excelente!!
    Parabéns!!
    Bjoss

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