MARVIN E A BALANÇA DO CARMA




Depois de eons de experiência, os deuses chegaram à conclusão de que o Universo estava muito melhor sem sua interferência direta. As pessoas continuavam se matando e fazendo outras coisas terríveis, não importava quantas pragas fossem jogadas nelas. Então, numa reunião além do Tempo, eles resolveram criar uma ferramenta que policiasse o Universo de forma objetiva e impessoal: a Balança do Carma.

A Balança do Carma era composta de dois pratos que comparavam as ações de cada ser vivo no Universo, de modo que ações “boas” fossem pesadas contra as “más”, e o Universo recompensasse ou castigasse de acordo com seu julgamento.

Depois de criar a Balança, os deuses se retiraram para umas férias do Universo, além do véu que separa Tempo e Espaço convencionais das regiões abstratas da Existência. Muito de vez em quando, um deles tinha que vigiar a Balança. Bastet, a deusa gata do Egito, dormitava em frente a balança quando nasceu Tom: o primeiro erro do Carma.

Tom era um problema. Seria ruim o suficiente ter um assassino que passasse despercebido à justiça da Balança, mas devido a uma anomalia de seu nascimento, o homem era recompensado pelos seus crimes. Quando matava alguém, ele aumentava seu tempo na Terra com mais uma vida.

E não apenas vidas humanas, como ele descobriu. O Universo vê cada vida com o mesmo valor, e Tom percebeu que não havia diferença entre matar um ser humano e, digamos, um gato. Na verdade, matar um gato era até melhor, pois roubaria não uma, mas sete vidas que se acumulavam exponencialmente de acordo com quantas vezes matasse a mesma vítima.

Marvin tivera o azar de ser um desses gatos. Ele já fora morto por Tom 6 vezes, por 5 meios diferentes: afogamento, defenestração, atropelamento, pitbull faminto e duas vezes por churrasco. Tom gostava desse método.

Na última vida de Marvin, tentando acertar as contas cármicas, Bastet fez com que o bichinho reencarnasse num templo no alto da montanha do Pico do Gato, onde foi treinado em artes marciais por monges shaolin.

O luar brilhava sobre o Pico do Gato com uma luz fria e afiada, refletido na neve e nos olhos de Marvin, que mediam cada movimento do inimigo a procura de uma brecha na defesa.

— Você sabe como isso acaba ̶ miou Marvin desembainhando sua Katana.

—Como sempre, bola de pelos ̶ caçoou Tom ̶ com você morto.

—Não desta vez, ladrão ̶ miou o gato, que saltou com a espada em punho na direção do pescoço de seu obstinado assassino, que aparou o golpe com sua própria espada, um trambolho desengonçado e pesado. Com o movimento, Marvin foi jogado pelo ar, um projétil peludo e afiado que caiu de pé a poucos metros do adversário.

Tom girou sua espada na direção do gato, que pulou por cima do ombro do assassino e aterrissou por trás dele. Aproveitando a posição, o felino shaolin abriu um talho nas costas do inimigo.

—Você achou que seria fácil de novo? ̶  zombou o gato.

— Eu vou fazer espetinho de você! Te comer com farofa!

O assassino tentou um golpe vertical que teria cortado o gato ao meio se Marvin não tivesse disparado por entre suas pernas flexionadas. Mais uma vez em vantagem, Marvin cortou os tornozelos de Tom, que caiu ajoelhado.

— Você tem ideia de quantos anos eu tenho, pulguento!? Eu sou imortal, imbecil!

—Era .̶  corrigiu Marvin, e decapitou seu assassino, pintando a neve com um esguicho de sangue. O corpo do assassino murchou e se reduziu a uma casca vazia, a pó, a uma névoa, a nada.

Em outro lugar, num plano além das restrições de tempo e espaço, Bastet suspirou de alívio ao ver os pratos da Balança do Carma voltarem ao equilíbrio habitual.




















11 Comentários

  1. uau, que jeito legal de falar da vida cotidiana! eu fiquei ligada na tela do computador lendo!!! no fim, sempre a balança se equilibra
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Será que no final tudo realmente se equilibra?
    Não sei..há um ditado que li não sei onde, dito por não sei quem(se você matar alguém mal, você se torna uma pessoa boa? Não! Mas se torna mais um assassino).
    Pra variar a quarta teve gostinho de quero mais!!!
    Adorei!
    Beijo

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  3. Que conto!Me lembrou de um dito provérbio ,ou quase isso, popular:Um dia da caça outro do caçador,neste caso infinitos do Tom e único e pérpetuo do Marvin,rsrsrs...E tudo voltou ao equilíbrio,será?Um abraço.

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  4. Adoro os contos do Bruno (Ainda não tiro o beijando a lona da cabeça) e com esse não foi diferente. O final foi bem surpreendente.

    Abraço õ/

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  5. Oi, Bruno!!
    Gostei bastante do conto, como adoro gatos fiquei muito feliz por que o Marvin levou a melhor no fim, mas será mesmo que a balança voltou ao normal mesmo?!!
    Beijoss

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  6. Nossa, mas esse ficou com cara de história real! Me lembrou muito aquelas mitologias famosas. Tem um tom bem de história assim, o texto ficou muito bom.
    Só eu fiquei querendo um livro agora? Haha, seria bem bacana alguma trama surgindo nesse estilo, falando mais sobre carma e universo e deuses... Adorei esse conto ^^

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  7. QUE.VIAGEM.
    Adorei.
    Poderia facilmente ser o roteiro de um episódio de qualquer desenho do Cartoon. haha

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  8. Adorei Bruno!!!
    Vc tem um jeito de finalizar teus contos que dão ainda mais vida ás palavras...Parabéns!
    Bjs

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  9. Bruno!
    Bem interessante a analogia da balança e como o gato com apenas uma morte conseguiu equilibrá-lo após seis vezes já ter morrido.
    Criativo e nos faz repensar nossas atitudes...
    “O saber é saber que nada se sabe. Este é a definição do verdadeiro conhecimento.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de FEVEREIRO, livros + KIT DE MATERIAL ESCOLAR e 3 ganhadores, participem!

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  10. Oi Bruno!
    Adorei seu conto! Mas, me pergunto, será que a balança do carma ainda está mesmo equilibrada? Mas como adoro gatos o final não poderia ter sido melhor! Abraços!

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  11. Excelente final.
    Gostei da mistura de mitologia no conto.
    Mas acho que a balança deve estar meio desequilibrada de novo. rs

    Desbravador de Mundos - Participe do top comentarista de fevereiro. Serão dois vencedores, dividindo um vale compras e dois livros.

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